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COLUNAS

Terça-feira, 14/10/2003
Uma teoria equivocada
Maurício Dias
+ de 3600 Acessos
+ 3 Comentário(s)

“Kandinsky desdobrou esforços em Moscou entre 1918 e 1921. Entrou para o Comissariado para a Cultura Popular (Narkompros), ensinou nos Vkhutemas, criou numerosos museus no interior, contribuiu para a criação do Inkhuk, Instituto de Cultura Popular, cuidou da revista Iskusstvo, foi nomeado professor honorário da Universidade de Moscou e, enfim, fundou uma Academia das Artes e Ciências, de que era vice-presidente.” (Ponto e Linha sobre Plano, nota 6, pág. 200)

O pintor e teórico da arte russo Wassily Kandinsky (1866-1944) é em geral reconhecido como o primeiro pintor abstracionista. Lecionou durante anos - inclusive na prestigiosa escola Bauhaus, na Alemanha pós 1a. Guerra Mundial - e deixou vários livros sobre arte.

Recentemente estive lendo seu livro Ponto e Linha sobre Plano (Ed. Martins Fontes, 1ª edição, 1997). A obra promove um fracionamento das formas gráficas a suas unidades básicas, para explicar como se dá o processo da expressão.

Como meta, é interessante. Pode ser comparado aos estudos anatômicos feitos pelo belga Andreas Vesalius (1514-1564). Após se formar em medicina na Universidade de Pádua, Vesalius estudou profundamente a estrutura do corpo humano, e publicou De Humani Corporis Fabrica (em 1543), um tratado ricamente ilustrado que desde então se tornou um paradigma para médicos e artistas. Em ambos os trabalhos esmiúça-se as partes para chegar ao todo. Antes de Vesalius, artistas como Da Vinci já tinham desafiado o establishment religioso e feito estudos por conta própria em cadáveres. Este profundo interesse no ser humano é uma das chaves do Renascimento.

É claro que todo pioneirismo está sujeito a erros. Da Vinci acreditou que havia um canal ligando o órgão sexual humano à alma, uma idéia que, ainda que poética, não tem nenhuma base científica.

Evidentemente, muito do julgamento sobre o trabalho de um pioneiro em qualquer campo acaba sendo afetado pela continuidade que é dada a este trabalho por seus discípulos ou qualquer um que fale em nome dele.

Wagner e Nietzsche sofreram postumamente com a pecha de fornecedores de idéias para o nazismo – algo pelo qual não tiveram responsabilidade. E como seriam interpretados atualmente se a Alemanha tivesse ganho a Segunda Guerra? As idéias biológicas de Darwin deram origem ao Darwinismo social, mesmo que o campo social nunca tenha sido o foco de interesse do pai do Evolucionismo.

Em alguns pontos apresentados em Ponto e Linha sobre Plano fica-se em dúvida se estamos lidando com má-fé ou falta de clareza. Evidentemente, Philippe Sers, o autor do longo prefácio, tem grande cota de culpa.

Passemos a estes pontos, e comentarei o que me parece equivocado. “(Kandinsky emite)... uma declaração intrigante, que ainda hoje ressoa com força: ‘O contato do ângulo agudo de um triângulo com um círculo não tem um efeito menor do que o do dedo de Deus com o dedo de Adão em Michelangelo.’ (...) Observemos, primeiramente que, se Kandinsky chega a tal declaração, é porque tem de justificar a arte abstrata em resposta a uma pesquisa particularmente densa feita pela prestigiosa revista Cahiers d`art.” (prefácio, pág. XXXIV, 2º e 3º parágrafos)

Aqui vemos uma opinião, que evidentemente tem o direito de existir, mas que é tão válida e legítima quanto muitas outras. Na verdade, uma opinião diametralmente oposta teria mais razão de ser do que a de Kandinsky; pois a obra de Michelangelo tinha (na época em que o texto citado foi escrito) cerca de quatrocentos anos a corroborar-lhe a qualidade, e as idéias e a obra do russo ainda estavam em andamento, não-concluídas. Kandinsky não apenas afirma que o geometrismo, um recém-nascido engatinhante, tem valor igual ao da milenar arte figurativa, mas ao que de melhor esta produziu, um de seus paradigmas.

Tal bravata não pode ser base para uma teoria. É como se um garoto que vendesse amendoins no sinal de trânsito dissesse: "– Os empreendedores, como Rockefeller e eu, sempre tentam caminhar com as próprias pernas." Sei que vendedores de amendoim em geral nunca ouviram falar de Rockefeller, mas a comparação entre as frases é válida: a distância entre o consagrado e o iniciante existe e tem que ser respeitada. Mesmo que o garoto dos amendoins, contrariando todas as probabilidades, consiga no futuro, por tenacidade e sabe-se mais o quê, se transformar num mega-empresário, no momento da tal declaração, ele não o era.

Não creio que a comparação de Kandinsky caia sobre A Criação de Adão por razões unicamente artísticas. A Criação de Adão é o teto da Capela Sistina, é o poder do Vaticano, é o mundo católico; a tudo isto o russo está opondo o seu olhar, para um mundo novo. O que explica ele estar em Moscou entre 1918 e 1921, criando museus no interior e ligando-se à cultura popular.

Tanto que na pág. XXXV do prefácio, 1o parágrafo, lemos sobre A Criação de Adão: “E o tema do afresco é a representação de Deus Pai, inaceitável teologicamente para a fé ortodoxa e quase blasfema, como sobressai das Atas do grande concílio de Moscou, que tem todo um capítulo consagrado à proibição dessa imagem puramente fantasista, pois Deus Pai, isto é, a primeira pessoa da Trindade, nunca se manifestou visualmente(.)...”

Aqui julga-se arte por questões teológicas, completamente alheias ao campo da primeira. E ignora-se a passagem do Gênesis 1-26: “Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.’” Se o homem é feito à imagem de Deus, sabemos como é Deus. Não que este seja meu credo, mas apenas digo que um argumento contra o que é posto em Ponto e Linha sobre Plano pode ser encontrado logo na primeira página da Bíblia.

Na mesma pág. XXXV, no 2º parágrafo: “Assim, as palavras de Kandinsky têm a força da evidência. De fato, a representação abstrata nos interessa muito mais do que a representação blasfema. Poderíamos dizer que, aqui, a arte ‘abstrata’ se manifesta como uma necessidade apofântica. Diante da não-manifestação visual de Deus Pai, a arte abstrata vai nos fornecer a única linguagem visual não-blasfema, a que se baseia na apófase.”

Eu também não sabia o significado da palavra "apófase". No Dicionário de O Globo consta como: "Figura pela qual alguém refuta aquilo que ele próprio acaba de dizer." Então, segundo o seu discípulo Philippe Sers, a arte de Kandinsky fala algo e se desmente em seguida. O que ele nos diz, não se escreve, seria isso? Acho que Kandinsky devia ter escolhido melhor seus apóstolos.

Aliás, o prefácio deixa claro que não há problema em contradizer-se: “A característica mais notável da Revelação do Espírito é, pois, o aparecimento da Lei interior, que substitui a Lei exterior (mosaica)” (pág. XXX, parágrafo 3); “Cristo, como ele mesmo confessa, não veio negar a Antiga Lei.”(pág. XXVIII, parágrafo 2).

Da parte citada mais acima, adoro particularmente o trecho: "Assim, as palavras de Kandinsky têm a força da evidência." Evidência do quê, ô cara-pálida? Quero dados, não sacações sem nenhuma base concreta. “Diante da não-manifestação visual de Deus Pai, a arte abstrata vai nos fornecer a única linguagem visual não-blasfema...” Mesmo aceitando o ponto do comentador de ser blasfêmia a representação do Deus Pai – afirmação esta que provei acima ser contestável – , para não ser blasfemo bastaria não representar Deus gráfica ou escultoricamente. Um desenho de uma mulher nua também é blasfêmia? Um cavalo pintado por Velázquez é blasfêmia? Árvores, paisagens, naturezas-mortas, tudo blasfêmia?

“A arte segundo Kandinsky, tem uma função profética.” (pág. XV do prefácio, parágrafo 6). “Em outras palavras, como conceber uma arte profética não-figurativa, eis a questão. (...) O profeta é um inspirado. É o inspirado por excelência, porque é habitado pelo Espírito divino ou Espírito Santo. Isto significa que ele fala de Deus, que fala em nome de Deus. (pág. XVI, parágrafos 1, 2). Se Kandinsky tinha esta visão, porque trabalhou tão arduamente por e para um sistema ideológico que pregava o ateísmo e o materialismo? (Ver a citação no início do texto.)

Sacações não faltam ao livro, vejam esta: “Toda teologia bizantina tem sua tradução e uma parte de seu coroamento na constituição da imagem, tornando-se o ícone a arte cristã por excelência a partir do momento em que Deus adquiriu forma humana pela encarnação de Cristo. Mas Cristo existe para anunciar a terceira Revelação, a do Espírito, que podemos interpretar como assinalando o desaparecimento da imagem exterior ou, mais exatamente, o desaparecimento do aspecto exterior (figuração dos objetos) da imagem.” (pág. XXXII, parágrafo 1)

Claro que podemos interpretar assim. Podemos interpretar de mil formas, é um mundo - até certo ponto - livre. E todas elas, se não houvesse indícios concretos, ou um ponto de partida lógico, seriam interpretações, visões, não "a verdade". Eu só queria saber por que o século XX decidiu que esta interpretação merecia mais consideração que novecentas outras. Qual a base, o indício que levou um sujeito a afirmar isto, e milhares a corroborar?

Acho que a resposta é uma conjunção de fatores: fatores ideológicos, a existência de um mercado burguês ávido por se integrar à inteligentzia (desde que não tenha que estudar para isso), a possibilidade desta inteligentzia lucrar com a burrice do mercado burguês, vendendo-lhe a peso de ouro algo que ela sabe ser lixo; o desejo de pessoas medíocres verem a si mesmas como talentosas, a longa duração necessária para se formar um bom artista figurativo (leva anos), o fato de que é mais fácil separar o joio do trigo na figuração (os critérios são mais claros), o que poderia tornar a participação desta mesma inteligentzia irrelevante no processo [a relação deixaria de ser a corrente burguês – crítico - curador - marchand – artista, tendendo a tornar-se simplesmente burguês-artista, consumidor e produtor].

Até aí tudo bem, tem gente fazendo banalidades, tem gente que não se importa de pagar por isto, formam um par perfeito. O problema é a quantidade de dinheiro público que entra na jogada! E como este sistema é corporativista e excludente. Mas isto já está avalizado por Kandinsky, e é aqui que ele assina sua confissão:

“Evidentemente a nova ciência da arte só poderá ser concebida transformando-se em símbolos os signos e se o olho aberto e o ouvido atento encontrarem o caminho que leva do silêncio à palavra. Os que não forem capazes de fazê-lo deverão renunciar à arte, ‘teórica’ ou ‘prática’ – seus esforços nunca levarão a uma ponte e apenas aumentarão ainda mais o abismo atual entre o homem e a arte. São justamente homens como esses que pretendem pôr hoje um ponto final depois da palavra Arte.” (página 19, parágrafo 2)

Imagine isto. Ele ordena que quem não se enquadre em seus padrões desista da arte. Pois só o evangelho segundo Kandinsky é válido. Ele não quer apenas que haja espaço para o que então surgia como desviante; ele quer que o desviante torne-se regra. Ainda bem que Francis Bacon, Lucian Freud, Portinari e muitos outros não lhe deram ouvidos, e continuaram trabalhando a figura, cada um a seu modo. Mas o estrago que isto deve ter feito em milhares de jovens, que ainda em formação, incertos sobre a qualidade de seus próprios trabalhos, se defrontaram com o fascismo Kandinskyano.

E um livro que contém tal frase é um dos pilares teóricos da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, antiga Real Academia, a escola que em outras épocas formou Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e outros grandes nomes. Basta uma visita ao "Pamplonão", galpão onde ficam abrigados os trabalhos de pintura dos alunos, e ver-se-á a indigência ali exposta, única possível prática decorrente da adoção sem questionamentos de uma teoria como esta.

Mas tudo isto é um fenômeno mundial: em Veneza, Nova York, Paris, a visão monolítica prevaleceu. Espero que daqui há trinta anos as pessoas já tenham percebido o quanto o século XX foi patético.

Para ir além





Maurício Dias
Rio de Janeiro, 14/10/2003

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
16/10/2003
18h23min
Penso que tudo isso que aconteceu e vem acontecendo nas artes plásticas era e é inevitável, pois tanto kandinsky como klee distrincharam, classificaram e definiram o que os grandes mestres já sabiam e usavam amplamente de maneira unificada em seus trabalhos por espanto dos "artistas abstratos", no entanto, não perceberam que isso é para o artista de hoje não só um deleite, mas também principalmente um desafio; o deleite de conhecer com clareza os aspectos do campo visual (kandinsky) e do universo poético da imagem (klee) e um desafio: o de unir tudo isso novamente sobre o peso deste conhecimento e da herança mesmo que um pouco perdida dos GRANDES MESTRES do passado.
[Leia outros Comentários de stefano]
24/9/2007
13h55min
Maurício, penso que toda essa questão da arte, até bem pouco tempo, passou por essa questão da Verdade, aquela, tão sagrada em outras áreas também. A pós-modernidade foi nos dar verdades, relativizar, brincar, inclusive, com o sagrado... Passe pelos Cursos de Estética de Hegel. Chega a ser cansativo o tanto de justificativas em torno do "belo artístico", do Espírito e da Verdade. Quem liga pra isso hoje? Kandinski, na medida em que de certa maneira cometia uma "heresia" (e ele devia se culpar muito por isso por causa de sua tradição) tentava justificar de todas as maneiras sua arte de formas abstratas. Precisava convencer de que ela era "a" Revelação. Fascimo do lado dele? Os nazistas consideraram sua arte degenerada... Enfim, eles são necessários como investigadores. Agora, se as escolas de Artes o tomam como dogma, aí é outro problema. É como ler Nietzsche e querer fazer uma cátedra de seu pensamento...
[Leia outros Comentários de Rogério Kreidlow]
25/9/2007
14h29min
Rogério, acho o texto de Kandinski fascista, no sentido em que ele quer silenciar quem dele discordar: “Evidentemente a nova ciência da arte só poderá ser concebida transformando-se em símbolos os signos e se o olho aberto e o ouvido atento encontrarem o caminho que leva do silêncio à palavra. OS QUE NÃO FOREM CAPAZES DE FAZÊ-LO DEVERÃO RENUNCIAR À ARTE, ‘TEÓRICA’ OU ‘PRÁTICA’ – seus esforços nunca levarão a uma ponte e apenas aumentarão ainda mais o abismo atual entre o homem e a arte. São justamente homens como esses que pretendem pôr hoje um ponto final depois da palavra Arte.” (Ponto e Linha sobre Plano, página 19, parágrafo 2)
[Leia outros Comentários de Mauricio Dias]
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